Data : 18/09/2017

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Homilia do Pároco

Quem já passou por uma situação de agressividade, principalmente agressividade moral ou traição, por exemplo, sabe muito bem que perdoar não é fácil. Alguns psicólogos dizem que o perdão é uma das terapias mais difíceis de ser realizada com alguém. Não se perdoa de uma hora para outra. Algumas pessoas, por exemplo, levam anos até conseguir dar o perdão a quem o ofendeu. Existem histórias que contam que algumas pessoas não foram capazes de perdoar nunca e morreram sem conceder o perdão. Falo isso com o propósito de acentuar a dificuldade de perdoar. Quando alguém sai ferido demais de algum relacionamento acontece o fechamento e a anulação de quem ofendeu. O agressor perde qualquer referência de amizade, de consideração, de respeito. Torna-se, usando as mesmas palavras do Evangelho, um devedor que não terá como pagar a dívida contra a gente. Alguns reagem de modo violento contra o agressor; outros reagem de modo violento contra si próprios. Não perdoam, e a situação piora a medida que se alimentam a raiva que os consome por dentro.

“O rancor e a raiva são coisas detestáveis; até o pecador procura dominá-las”. Assim iniciava a 1a leitura, que ouvimos. Uma pessoa rancorosa, cheia de raiva, ou que vive remoendo raiva, é a imagem viva da infelicidade porque a raiva tem a capacidade de roer o interior da pessoa. Esse processo interior consome a pessoa, a ponto de isso se tornar visível. Transparece no rosto. A infelicidade da pessoa com raiva está no fato que ela é incapaz de amar. São João, na sua 1a carta — 1Jo 3,14 — tem uma frase terrível: “quem não ama permanece na morte”. Ou seja, uma pessoa com raiva, incapaz de amar, perde o gosto da vida, perde o gosto de viver, cai em depressão e, em vez de cultivar a vida, de se alegrar na vida, vegeta rastejando na morte. É incapaz de amar, incapaz de sorrir, incapaz de cantar e dançar, incapaz de viver. Como dizia acima: é a imagem viva da infelicidade estampada no rosto. A raiva é um sentimento violento, que deseja o mal ao outro e impossibilita dar o perdão a quem o ofendeu.

Por isso, o perdão não é somente uma atitude bonita, mas é algo necessário para viver, para poder sorrir sentindo a vida. A raiva é um caminho de destruição; o perdão faz o caminho inverso: é o caminho que vai ao encontro da possibilidade de construir — ou reconstruir — a vida de outra maneira. Perdoar é um processo; algo parecido como quem se coloca em viagem: precisa se preparar, colocar na bagagem de sua vida doses de amor, doses de generosidade, doses de coragem e de muita fé. Ninguém perdoa de uma hora para outra. O perdão nasce aos poucos, na proporção que o amor e a alegria de viver nascem dentro da pessoa. Por isso, o perdão precisa ser plantado e, dia a dia cultivado e cuidado. Ninguém que vive na raiva acorda de manhã e diz: “acho que hoje eu vou perdoar”. Existem passos para que o perdão seja sincero e duradouro e, o primeiro passo, é libertar-se da raiva que está dentro da pessoa. Posso adiantar que se trata de algo difícil porque todo este processo encontra-se na esfera da doação, na capacidade de suplantar-se a si próprio e se tornar parecido com Deus.

Gostaria de concluir minha reflexão pedindo um olhar atento para a Liturgia que estamos celebrando, hoje. A convivência com outras pessoas, dada a filosofia de vida de que, cada um precisa levar vantagem em tudo, favorece momentos de tensão e agressividades que geram raivas dentro de nós. Contra isso, duas coisas importantes: não passar a vida queixando-se de que é um perseguido na vida. Este primeiro pensamento está no salmo responsorial. A segunda coisa importante é seguir o conselho que Jesus dá a Pedro: não deixe a raiva cair no seu coração, afaste-a logo com o perdão e com o perdão incansável. Perdoe setenta vezes sete. Assim, olhando a vida de frente, sem queixas, e disposto a perdoar sempre, a raiva não fará morada em sua vida. Você será feliz. Amém!