XXV Domingo do Tempo Comum

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XXV Domingo do Tempo Comum

(Mc 9,30-37)
Só cresce quem é pequeno!

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

“Quem é o maior entre nós?” Esta pergunta ocupava o coração e a mente dos discípulos enquanto caminhavam com Jesus, durante o tempo que o próprio Senhor tinha reservado para estar exclusivamente com eles: “Não queria que ninguém soubesse, pois ensinava aos discípulos”. Na iminência dos fatos decisivos que estavam para acontecer em Jerusalém: paixão, morte e ressurreição de Jesus; os discípulos necessitavam ter clareza do que significava seguir o Messias Jesus, proclamado há pouco por Simão Pedro.

Na subida para Jerusalém, depois da confissão de Pedro, Marcos por três vezes sublinha a declaração de Jesus feita com franqueza (parresia: clareza serena e firme) sobre aquilo que o aguardava no fim de seu caminho (Mc 8,31-32; 9,30-31; 10,32-34). Se até então, os discípulos, apesar dos numerosos milagres e prodígios, ensinamentos cheios de sabedoria e autoridade, não tinham ainda conseguido entender quem era Jesus, agora é o próprio Senhor, que evitando toda dispersão e ambiguidade, procura chamar os seus discípulos àquela clareza meridiana da verdade sobre a sua Pessoa e o seu destino, como Messias sofredor, mas jamais abandonado por Deus, pois é Filho de Deus. O sofrimento e a morte do Filho do Homem criam incompreensão e pavor nos discípulos, mas o anúncio da sua ressurreição após três dias confirma que Ele é verdadeiramente Filho de Deus.

Os discípulos, apesar de terem toda a liberdade para pedir esclarecimentos sobre os ensinamentos de Jesus, em algumas ocasiões preferiram calar ou mesmo fazer barulho de fundo para não ter que ouvir a verdade sobre o Mestre.

Para além de uma incompreensão, verifica-se uma dificuldade de aceitação, pois isso implica compromisso e consequências. Quantas vezes preferimos afirmar que não entendemos o que foi dito para nos isentar das responsabilidades decorrentes daquilo que ouvimos. O anúncio feito por Jesus de sua morte e ressurreição não foi expresso em forma enigmática ou em linguagem simbólica que exigissem uma interpretação de mentes superiores ou iluminadas. Não havia o que interpretar, a não ser aceitar. Portanto, a incompreensão dos discípulos não diz respeito a uma dificuldade de entender o que Jesus estava dizendo, mas a dificuldade de aceitar que seguir o Messias Jesus era assumir também o seu destino, a sua cruz, a sua morte para poder participar da sua ressurreição.

Quando alguém se cala, diante do que não compreende, isto pode indicar duas atitudes de fundo. Primeiramente, uma incompreensão absoluta de tal modo que não sabe nem dizer o que não entendeu, e por isso não sabe o que perguntar. Por outro lado, pode também ser uma artimanha para isentar-se das responsabilidades que ele mesmo chega a intuir diante do que foi dito e, portanto, é mais cômodo apelar para a falta de compreensão e não se comprometer.
Os discípulos se calaram diante da palavra “incompreensível” de Jesus, mas a reação não foi de sadia curiosidade para esclarecer o que ouviram; diz Marcos que “Eles temiam (grego efobounto: tinham fobia) pedir explicação”.

Diante do medo, do pavor de ter que seguir as pegadas do Mestre, que se encaminha para a cruz, nada melhor do que buscar subterfúgios, tomar o caminho da alienação. Alienação muito sutil, pois objetivamente estavam no mesmo caminho os discípulos e Jesus, mas em direções completamente opostas. Enquanto o Mestre se encaminhava para a consumação do seu esvaziamento voluntário (kenosis), os discípulos disputavam por poderes e privilégios, atitude descabida e irônica de quem se dizia discípulo. Enquanto a autoridade do ensinamento de Jesus, já reconhecida no início do seu ministério (Mc 1,22), iria ser autenticada pela entrega de sua vida na cruz, os discípulos almejam a recompensa de ter seguido um messias sem cruz, esperando a condecoração do primeiro lugar.

A pergunta dos discípulos: “Quem é o maior entre nós?” é a dramática revelação de que não reconheceram ainda quem é Jesus a quem chamam de Mestre. Mestre em aramaico se diz Rabi (literalmente significa: rab: grande; i: meu). Por conseguinte, se eles chamavam Jesus de “meu grande”, a pergunta já estava respondida. Quem é o maior entre nós? O Mestre. Mas excluindo Jesus do “entre nós”, perderam a sua identidade de discípulos, agora todos querem ser o grande num grau superior: o maior. Se a tentação de Pedro, chamado de Satanás, ao responder que Jesus era o Messias, foi tentar tirar Jesus do caminho da cruz (XXIV Domingo do Tempo Comum), agora os outros querem usurpar o lugar de Jesus, não mais reconhecendo-o como o maior entre eles.

Nada melhor para provocar a desalienação do que um gesto profético que choque a mentalidade alienada. Eis o que faz Jesus: abraçando uma criança, declara quem é o maior. Infelizmente, a tradução das palavras de Jesus para outra língua pode sofrer perdas significativas. Em aramaico, a língua de Jesus, tanto para criança como para servo (também para cordeiro) usa-se o mesmo vocábulo, isto é, talia. Desta forma, Jesus abraçando uma criança torna visível de forma muito didática o que significou a sua encarnação, qual a sua identidade, quem Ele é (Fl 2,6.7.8): “Sendo Filho não se apegou à sua condição divina (grande), mas se esvaziou e abraçou a condição de servo (criança)…humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz! (Primogênito dentre os mortos: primeiro).

Se nós cristãos ainda caímos na tentação de procurar saber quem é o maior entre nós, nas nossas comunidades, nos trabalhos pastorais, vivemos a pior das alienações, pois pensamos seguir Jesus, mas tomando um caminho que não é o Dele. 

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