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XXII Domingo do Tempo Comum

Não só mãos limpas, coração também!

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

“Este povo com os lábios me honra, mas o seu coração distante, está afastado de mim”. Citando este trecho de Isaías (29,13), Jesus desmoraliza a crítica dos fariseus e mestres da Lei que acusam alguns de seus discípulos de não seguirem a Tradição dos antigos. A denúncia da hipocrisia da religião de aparência, do ritualismo vazio e do culto descompromissado com a vida, no tempo de Jesus, já se constituía uma verdadeira tradição originada na pregação profética do séc. VIII a. C. Com Amós, que denuncia o esplendor do culto que encobre a ausência de uma verdadeira religião, pois o luxo dos grandes insulta a miséria dos pobres, e com Isaías e tantos outros profetas que também reforçam essa Tradição, evidencia-se a hipocrisia do povo, sobretudo dos seus dirigentes que, apegados à aparência da pompa dos rituais combinada com a prática da injustiça, manifestam o seu altíssimo grau de superficialidade e falsidade, verdadeira represen-tação teatral (hypocrisia).

Jesus, nas suas palavras e atitudes, identifica-se muito com essa antiga Tradição dos profetas, e caminha para um fim muito semelhante ao dos grandes profetas do Antigo Israel que não eram, por sua vez, críticos insolentes da Lei de Deus e da religião, mas seus autênticos e zelosos guardiães. Pois sendo conhecedores da Torah, reconheciam que nos mandamentos estavam a sabedoria e a inteligência para promover e garantir a vida (cf. Dt 4,6). Contudo, não silenciavam diante das manobras que os dirigentes políticos e religiosos faziam para distorcer o Mandamento, tirando e acrescentando o que lhes convinha. Daí consequentemente surgem as tradições humanas, também severamente criticadas por Jesus. Pois o que acontecia era uma substituição do Mandamento pelas tradições humanas: “Abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”. Especificamente sublinham-se as tradições de ablução ritual, que para os fariseus não eram apenas procedimento higiênico, mas rompimento com tudo aquilo que consideravam impuro: pessoas, coisas, lugares etc. Jesus os chama de hipócritas, isto é, de atores, fingidos, porque abominam o que consideram impuro, mas não deixam de frequentar os mesmos lugares, falar com as mesmas pessoas por interesse, e usam as mesmas coisas. E para manterem a consciência tranquila ou sedada praticavam ritos quase mágicos, mas não assumiam atitudes mais concretas e coerentes com tais princípios.

O tema do puro-impuro está muito relacionado na história das religiões com o sagrado-profano, diferentemente da nossa mentalidade que identifica o puro com o moralmente irreprovável (santo) e o impuro com o imperfeito (pecador). Na Bíblia não funciona assim, pois tais conceitos se referem essencialmente ao aspecto ritual. Em outras palavras, o puro é o hábil para o culto, e o impuro é o que está impedido de tocar o sagrado. São termos relacionados, quase que um depende do outro para ser compreendido. Tanto é verdade que, etimologicamente, profano significa “diante do sagrado” (pro: ante + fanum: templo). O problema não era a distinção, mas a oposição que sobretudo os fariseus faziam, criando assim uma inversão de valores. Para Jesus a lavagem de mãos e utensílios em vista da refeição não era um problema, visto que a crítica feita pelos fariseus não era a Jesus, mas a “alguns de seus discípulos que comiam com as mãos impuras” (7,1), talvez naquela ocasião Ele mesmo tenha observado essas prescrições, ainda que não as absolutizasse.

Ter mãos e utensílios limpos é uma exigência natural, mas de que vale tudo isso se o coração se torna a sede de maldades e pecados, a verdadeira impureza, isto é, o que impede tocar o Sagrado. Portanto, lavar escrupulosamente as mãos e conservar o coração sujo representa a pior das hipocrisias, isto é, incorre-se na manipulação do Sagrado e na camuflagem dos limites humanos.

A crítica insistente dos fariseus por terem constatado a transgressão da tradição dos antigos (sobretudo o voltar da praça e compulsivamente lavar-se), contrapõe-se à atitude de Jesus relatada na perícope anterior (6,53-56), quando se diz que “Em todos os lugares onde entrava… traziam-lhe doentes, nas praças, para que os curasse… E todos os que o tocavam ficavam curados”. Jesus não opõe o puro ao impuro, o sagrado ao profano, mas reconhece a relação que existe entre ambos, pois negar esta relação pode resultar numa atitude hipócrita, dissimulada. Portanto, tocar o profano deve ajudar no reconhecimento do sagrado, e aproximar-se do sagrado deve levar ao reconhecimento da identidade legítima do profano.

A grande tarefa do ser humano em distinguir as várias realidades tem uma única finalidade: reconhecer a relação que existe entre elas, para buscar o seu equilíbrio necessário. O diferente não significa necessariamente o meu opositor. Negar essa sadia pluralidade e a riqueza da autêntica diversidade é cair na ditadura da uniformidade aparente. É absolutizar o relativo e subestimar aquilo que é mais importante.
Os ritos não devem substituir atitudes coerentes e necessárias para a vivência dos valores proclamados e defendidos, mas devem ajudar na sua conscientização e interiorização. O beijo de Judas ilustra muito bem esta contradição hipócrita: o beijo, sinal de respeito e afeto, mas usado como senha de traição (Mc 14,44).

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