IV Domingo da Páscoa

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IV Domingo da Páscoa

IV Domingo da Páscoa (Jo 10,11-18) Vida doada: pastoreio comprovado!
Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ
Celebramos hoje o Domingo do Bom Pastor, pois a cada IV Domingo da Páscoa se proclama um trecho do evangelho de João 10, que contém um discurso de revelação de quem é Jesus e qual a sua missão, com a metáfora do pastor. Ao longo desse capítulo, Jesus afirma solenemente ser o Bom Pastor (10,11.14) e qualifica-se como verdadeiro (10,2.11.12) por causa do relacionamento que tem com as suas ovelhas (10,15.16.18.27. 28.29). Dois destaques nessa afirmação de Jesus constituem a chave de compreensão desse seu ensinamento.
A declaração “Eu sou” é uma tentativa de traduzir o hebraico “Javé: Eu sou aquele que sou” (cf. Ex 3,14), e representa o ponto mais alto da revelação de Jesus, pois dessa forma Ele afirma ser Deus. Isto causou grande escândalo aos seus interlocutores, levando-os a acusá-lo de blasfemador (Jo 10,33). Com esta referência ao Nome de Deus, remonta-se ao momento no qual aconteceu a revelação desse Nome, isto é, no contexto do Êxodo, quando Deus se manifesta ao pastor Moisés confiando-lhe a missão de realizar o êxodo da escravidão para a liberdade, portanto, a ligação com a Páscoa é evidente. Por conseguinte, Jesus com essa afirmação declara-se o novo Moisés que realizará, com a sua morte e ressurreição, o novo Êxodo, a nova e definitiva Páscoa.
O segundo destaque é o complemento da afirmação, isto é, “o Bom Pastor”. Nesse ponto, Jesus retoma uma expressão já conhecida no Antigo Testamento. A metáfora do pastor é, por sua vez, aplicada tanto a Deus (Gn 48,15; 49,24; Sl 23,1; 28,9; 80,10s; Is 40,10s; Jr 23,3; 31,10; Ez 34,11-22), como também aos chefes (2Sm 7,7; Is 56,11; Jr 2,8; 3,15; Zc 10,3; 11,4-6). Existem personagens bíblicos veterotestamentários que se tornaram emblemáticos por serem pastores (Abel: Gn 4,2; Jacó: Gn 31,39-40; Moisés: Ex 3,1; Davi 1Sm 16,11). Portanto, a alusão feita por Jesus evoca na mente e no coração dos seus interlocutores uma longa história. História feita de páginas heroicas, isto é, de pastores que, chamados por Deus, se empenharam no cuidado com as ovelhas do seu rebanho, mas também pastores infiéis, mercenários, que traíram a sua missão e abandonaram o rebanho aos lobos e a toda sorte de ameaça e destruição. É justamente nesse contexto de infidelidade dos pastores do povo que Jesus afirma ser não apenas um pastor bom, mas “O Bom Pastor”, cumprindo assim as profecias do Antigo Testamento quando o próprio Deus, diante da falência dos pastores, anuncia que Ele mesmo se tornará o Pastor do seu povo (Is 40,11; Jr 3,15;23,4).
Podemos dizer que o capítulo do Bom Pastor não se situa apenas no centro do livro, mas tem uma centralidade em todo o escrito de João. Do início até o final do IV evangelho podemos entrever o tema do Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas. Já na primeira parte do evangelho, quando Jesus entra em Jerusalém, no contexto de páscoa, dirige-se ao templo e expulsa as ovelhas e os bois (Jo 2,13s). Como não ver nesse gesto corajoso de Jesus uma profecia em ato, que anuncia a libertação do povo (ovelhas) oprimido pela instituição falida (deformação da finalidade do templo). Numa outra ocasião, Jesus vai de novo a Jerusalém por ocasião de uma festa, e encontra na porta das Ovelhas uma multidão de doentes: cegos, coxos e paralíticos (Jo 5,2); mais uma vez, o povo é simbolicamente representado como ovelhas. Ao curar um paralítico, Jesus anuncia que é pastor, pois o conduzirá fazendo-o caminhar. Esta porta era chamada “porta das ovelhas” porque era a porta pela qual as ovelhas passavam para serem sacrificadas. No capítulo do Bom Pastor, Jesus também afirma ser a porta das ovelhas (10,7), que não mais conduz à morte, mas à vida plena.
No horto, quando os soldados chegaram para prender Jesus, ele se adiantou e perguntou a quem procuravam, eles responderam: “A Jesus, o Nazareu”. Por três vezes Jesus respondeu: “Sou eu” (18,5.6.8). Além do mais, pediu que os soldados deixassem partir os seus discípulos. Aqui se cumpria a sua palavra: “Eu sou o Bom pastor, o bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas… o mercenário quando vê o lobo chegar, foge e abandona as ovelhas” (10,11-13). Como não reconhecer no encontro de Madalena com Jesus, na manhã da ressurreição, à porta do sepulcro, a realização daquilo que o Pastor dissera de suas ovelhas: “As ovelhas ouvem a sua voz e ele chama a cada uma por seu nome e as conduz para fora” (10,3). Madalena, ao ouvir o seu nome: “Maria” (20,16), não tem mais dúvida de que era Jesus, o seu mestre, e não mais um jardineiro ou um estranho que lhe falava.
Por fim, na renovação do chamado de Simão Pedro, no epílogo do IV evangelho (Jo 21,15-23), o tema do Bom Pastor reaparece quando depois de ser interrogado por três vezes sobre a sua disposição de amar o seu verdadeiro pastor, Pedro é confirmado no pastoreio das ovelhas, que não são suas, mas do seu Senhor. E isto só será possível se ele estiver disposto a dar a vida por elas. A celebração da Páscoa é, por excelência, a ocasião para se proclamar que, de verdade, Jesus é o Bom Pastor, pois não apenas cuida da vida de suas ovelhas, mas dá a vida por elas.

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