O carisma dehoniano

Pe. João Carlos Almeida, scj
No coração da Família Dehoniana experimentamos um dom especial de Deus que nos une em comunhão, uma espiritualidade que nos anima para a missão de evangelizar.
Padre Dehon experimentou esta graça e — como ele mesmo disse — nos deixou por herança este maravilhoso tesouro: o Coração de Jesus. As palavras são muito pequenas para conter o significado de um carisma. Mas procuramos resumir aquilo que está em nossa Regra de Vida em apenas uma frase:

União à oblação reparadora de Cristo ao Pai em favor da humanidade (Cst. 6).

Este carisma define a nossa identidade deho-niana. É preciso estar sempre atentos à inspiração original e aos apelos do nosso tempo para manter-nos em fidelidade criativa ou dinâmica e realizar assim o nosso papel na Igreja.
Todo carisma tem duas dimensões: o que somos e o que fazemos. Ou seja, a espiritualidade (ser) e o apostolado (fazer). A expressão oblação reparadora sintetiza o nosso carisma nestas duas dimensões: a mística que nos anima e a nossa ação evangelizadora.

1. O que somos: “oblatos”

A oblação é o cerne da espiritualidade dehoniana. É a nossa mística. Basta lembrar que, na intenção original de Padre Dehon, o nome da Congregação deveria ser “Oblatos do Coração de Jesus”.

As expressões Ecce venio

(Eis-me aqui, eu vim, ó Pai, para fazer a vossa vontade — Hb 10,7) e Ecce ancilla (Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra — Lc 1,38) ficaram consagradas no meio de nós como expressão da atitude oblativa de Jesus e de Maria. O “Eis-me aqui” traduz perfeitamente o núcleo de nossa espiritualidade: a oblação!
Portanto, o dehoniano deve ser reconhecido por atitudes que nascem de sua união à oblação de Cristo e que marcam todo o seu ser: disponibilidade, amor à Eucaristia, obediência, espírito de comunhão (sint unum), coragem de arriscar a vida pelo evangelho em favor dos irmãos (sacrifício-imolação), solidariedade e gratuidade. Enfim, o oblato tem um coração grande, capaz de acolher, amar e servir.

2. O que fazemos: “reparação”

Se a oblação define o nosso “ser”, a reparação, por sua vez, é o eixo central do nosso “fazer”; é o critério de nossas opções apostólicas.

Mas o que significa exatamente dizer que “fazemos reparação”?

As constituições afirmam: “A reparação, nós a entendemos como sendo o acolhimento do Espírito (cf. 1Ts 4,8), uma resposta ao amor de Cristo por nós, comunhão ao seu amor pelo Pai e colaboração com sua obra redentora no mundo em que vivemos” (Cst. 23). Sobre este “acolhimento do Espírito” é bom lembrar o texto de Ezequiel em que encontramos a promessa de um “novo coração” unida à promessa de “um espírito novo”: Dar-vos-ei um coração novo, porei no vosso íntimo um espírito novo, tirarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne 
(Ez 36,26). Fazemos reparação quando acolhemos este Espírito que renova os corações. Somos colaboradores da obra redentora de Cristo que quer fazer de cada homem e mulher uma “nova criatura”. O Mestre nos confiou este “ministério da reconciliação” (cf. 2Cor 5,17-18). Somos “Profetas do amor e ministros da reconciliação” (Cst. 7). “A busca da beleza divina impele as pessoas consagradas a cuidarem da imagem divina deformada nos rostos de irmãos e irmãs” (VC 75).
Se fizermos uma leitura atenta das Constituições encontraremos várias traduções desta mesma realidade que chamamos de “reparação”. Por exemplo: remediar (5), regenerar (20), recriar (21), restaurar (23), libertar (23), reconciliar (25), curar (25). Embora nossa Congregação não tenha sido fundada em vista de uma obra determinada (cf. Cst. 30), nossa “missão reparadora” sugere algumas opções apostólicas típicas da Família Dehoniana:
Assumimos ainda outras tarefas como o apostolado no meio da juventude e nos colégios, paróquias, a Pastoral da Comunicação e a pregação de retiros — sempre “em sintonia com os sinais dos tempos e em comunhão com a vida da Igreja” (Cst. 32).
Síntese do carisma dehoniano: “União à oblação reparadora de Cristo ao Pai em favor da humanidade”.